sábado, 19 de fevereiro de 2011

O espelho e a sombra

Do encontro com nós mesmas...



hoje estava assistindo ao trailer de "Cisne Negro" e lendo algumas críticas a respeito do filme. O que me pareceu, a princípio um filme sobre o cotidiano de rígida disciplina exigida pela arte, se mostrou um mergulho muito mais profundo nos abismos da alma de uma mulher. Nina, a doce e delicada bailarina, protagonista que deseja nada menos do que ser perfeita, encontra nesse caminhos obstáculos que aos poucos vão se revelando ser fragmentos desconhecidos dela mesma. Sua antagonista, Lily, é a mulher sensual e desinibida que amedronta e fascina Nina, que serve para ela como um espelho, e a faz, com muita dor e sofrimento, buscar romper o casulo de sua doçura e ingenuidade quase infantis que a aprisionam, machucam e a impedem de se realizar. Lily está fora do padrão de Nina e ameaça sua personalidade rigidamente constituída.

Esse antagonismo das duas me fez pensar em algumas questões que marcam profundamente as relações femininas. A descoberta do corpo, do prazer e da própria sexualidade, dos desejos inconscientes, da rivalidade, inveja e competição, da angustia permanente entre realizar-se e tornar-se uma mulher completa e corresponder às expectativas de outros. Expectativas que, no caso de Nina, viram uma tortura permanente.
Acredito que os conflitos de Nina não são um caso especial. Podem ser até muito comuns. Acredito que para todas as mulheres, a descoberta de uma infinidade de nuances e possibilidades dentro de nós pode ser assustadora, pois significa a descoberta de uma outra, ou várias outras dentro de cada uma. Então...que mulher não foi educada para ser doce, meiga, dócil...uma boneca? que mulher nunca aprendeu que sentir ou expressar a raiva é condenável, é desagradável? acredito que muitas podem ter ouvido, assim como Nina "eu sabia que você não conseguiria" ou "desse jeito ninguém vai gostar de você". Enfim... que mulher, hoje, não se tortura pela necessidade de ser perfeita, linda, inteligente e bem sucedida? sem contradições, sem incoerências e o que é melhor (ou pior) sem frustrações, raiva, medo, inveja, ciúmes ou insegurança?... pois nada disso condiz com as boas maneiras esperadas de boas meninas.

O que quero dizer é que muitas de nós fomos e continuamos a ser criadas desconhecendo uma boa parte de nós mesmas...parte essa que nos permitiria grandes saltos, ou voos livres. Muitas de nós cresceram engessadas, ensinadas a ser frias como bonecas de porcelana. Até que um dia...o espelho quebra, e o que parecia uma imagem, se tornam muitas, cacos, fragmentos, que podem nos surpreender.
Essa é a descoberta de Nina, essa pode ser minha descoberta, ou de muitas outras...a descoberta de muitas em nós.

3 comentários:

  1. É verdade...escrevi antes de ver o filme, vou ter que escrever de novo agora!

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  2. e agora me dei conta, olhando o post abaixo...a dualidade entre Nina e Lily, até lembra a de Tereza e Sabina em A Insustentável Leveza do Ser. Uma terna, meiga, mas rígida e angustiada, em uma relação perversa com uma mãe frustrada; a outra sensual e desinibida, um tanto insdisciplinada e mais maliciosa.

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